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Uma história de prematuridade

Quem vê Beatriz, aos dez meses, linda e saudável, não imagina como começou a história dessa pequena guerreira. Bia nasceu com 30 semanas de gestação, medindo (com o corpinho esticado) 30 centímetros de comprimento e pesando pouco mais de um quilo - com a perda que todo recém-nascido apresenta, chegou a 690 gramas -, e ficou internada na UTI neonatal por 52 dias. A fé em Deus e o amor incondicional, o amor de mãe, juntos, venceram todas as dificuldades, produzindo pequenos milagres diários na vida de Beatriz.

A pequena Beatriz tem uma linda e forte história de superação.

Com o depoimento emocionante da mamãe Carol sobre a experiência de não poder ter a filha nos braços logo após o seu nascimento, o Blog Essa Mãe fecha novembro, considerado o mês de sensibilização pela prematuridade. Aqui, através dessa entrevista, uma singela homenagem e um apoio a todas as mamães que tiveram suas vidas marcadas pela prematuridade dos seus bebês ou que estão passando por esse momento delicado.


Bia com uma semana de vida.


"Bia entrou na classificação de prematuro extremo, por causa do tamanho e da idade gestacional. Tinha medo de ela não resistir. É desesperador, o medo de perder é muito grande e acompanha a gente o tempo inteiro. É um período de muita impotência, muita incerteza", conta Carol.


A mamãe enfeitava a incubadora.

"Para qualquer mulher, o pós-parto não é muito momento muito fácil, você tá fragilizada por causa da cirurgia, tem medo de não saber o que fazer, e quando você é mãe de um prematuro tem, ainda, o medo por não saber se ele vai sobreviver, se você vai conseguir levar o seu bebê pra casa. É uma mistura de sentimentos surreal, porque ao mesmo tempo que você tem o medo, você cria uma fortaleza dentro de você. E você, nesse momento, só pode dar amor. Consegui amamentar exclusivo. Sentava perto da bomba de leite rezando, pedindo a Deus que meu leite curasse todas as feridas."

Bia com um mês de vida.

"Na primeira semana de nascimento dela, não pude fazer a técnica do canguru, porque ela estava entubada, depois ela usou o CPAP (Continuous Positive Airway Pressure - aparelho usado quando o bebê necessita apenas de uma pequena ajuda para respirar). Somente quando ela apresentou um quadro mais estável, respirando sozinha, foi que deixaram eu carregar minha filha no colo, foi a primeira noite em que eu dormi tranquila. Toquei nela primeira vez, senti a pele dela, eu e ela. Até então eu só tinha tocado nela pela incubadora, com a ponta dos dedos, porque a pele dela era muito sensível e eu não podia fazer carinho."


Carol passava todo o tempo possível fazendo o "canguru". 

"Nas primeiras semanas, quando ainda não pode pegar o bebê no colo, você tenta transmitir amor de todas as formas possíveis. Passava as tardes em pé, cantando pra ela, rezava muito com ela, e com a mão nela, pra ela sentir que a mãe dela tava lá. E uma coisa que eu falo para toda grávida: converse muito com o seu bebê, cante muito pra ele enquanto estiver na barriga... Só pude ver Bia 48 horas depois do nascimento, poque eu fiquei na UTI, e quando eu cheguei na UTI neonatal falei pra ela: "Pituquinha, é mamãe". Ela se mexeu e virou pra mim. Nem meu marido acreditou. Ela reconheceu minha voz."  


Bia ganhou até lacinho quando tirou a sonda.

"Ela foi ganhando peso, um peso arrastadíssimo. Eu vibrava por 5 gramas, ficava feliz da vida. E quando tinha alguma intercorrência, meu estômago ia pro chão, ficava um bucaro dentro de mim. Nunca vou esquecer do dia em que a enfermeira falou que eu podia trocar a fralda da minha filha. Isso marcou tanto a minha vida!"


No dia em que Bia tirou a sonda.

"Um dia antes da alta foi marcante, porque ela estava sem a sonda para se alimentar. Ela estava se alimentando só do meu peito! Tiramos tanta fotos, de todos os ângulos, mandamos para todo mundo. Foi tão gostoso ver minha filha sem aqueles aparelhos."


Primeira noite de Bia em casa.

"Bia recebeu alta antes de ter dois quilos, porque o quadro dela era estável. Manter minha filha no hospital era um risco maior, por causa de infecção, do que dar a alta. Eu fiquei atordoada, corria, literalmente, dentro da UTI, abraça todo mundo, falava com todo mundo. Quando chegou em casa eu parei e pensei: "e agora? O que vou fazer?". Porque na UTI tinha um monte aparelhos, ela era monitorada o tempo inteiro, quando ela engasgava ou a respiração estava mais fraca os parelhos apitavam, os batimentos cardíacos eram monitorados o tempo todo. Eu sabia se ela tava estressada ou não, fiquei viciada no monitor, eu sabia ler o monitor, já sabia quais eram os sons preocupantes dos aparelhos."


Bia teve até mensário!

"A pior coisa do mundo, o pior pesadelo, era voltar todos os dias pra casa e deixar minha filha no hospital. Dava uma sensação de vazio, de dor, eu só dormia o necessário para me manter em pé. Você fica com medo de acontecer alguma coisa e não estar lá. Quando comecei a amamentar, saia da UTI umas 22h, tirava leite para a madrugada. Chegava em casa, tirava leite de novo, e ia dormir. Eu já acordava no susto, querendo ir ao hospital, e eu só podia ver Bia 10h. Da hora que eu acordava até 10 horas, ficava com o estômago embrulhado, porque só tinha notícias quando chegava lá. Aí você vê que tá tudo bem, você tem fome, você tem tudo. Eu nunca disse pra ela que eu ia pra casa, eu dava boa noite e dizia que ia dormir. Dizia pra ela que tava todo mundo esperando por ela em casa. Maiorzinha, quando via a gente sair, ela demorava para dormir. Eu só queria sair e deixar ela dormindo, para ter a impressão de que ela ia acordar só quando eu chegasse. Uma vez saí chorando, pedindo pra médica deixar eu ficar até ela dormir. Ainda bem que o pessoal que trabalha na UTI é muito humano, entende o que você tá passando."

"Acabei fazendo amizade com outras mães que estavam passando pela mesma situação. Formamos um grupo, a gente se reúne até hoje. O apoio das outras mães é muito importante. Quando você recebe uma notícia ruim, vem outra mãe e te ajuda, te coloca pra cima. As pessoas de fora não sabem o que você tá vivendo. Foi conversando com outras mães que meu coração se acalmou."

O papai, a mamãe Carol e Bia. 

"Eu entregava tudo a Deus e amadureci muito como pessoa, meu relacionamento também amadureceu, e eu passei a valorizar coisas muito simples. Quando eu tava grávida, queria um quarto lindo, queria várias coisas, e depois que passei por isso, vi que a gente só precisa que o filho tenha saúde e mais nada para ser feliz."  


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